sexta-feira, 22 de julho de 2011

George Farquhar 1676/7 - 1707 Pág 23

GEORGE FARQUHAR nasceu em Londonderry. Filho de sacerdote, estudou em Trinity College, em Dublin. Quando deixou a universidade, tentou a carreira de ator, mas tinha medo de se apresentar em público. Mudou-se para Londres, onde foi encenada sua primeira peça, Love and a Bottle, que contava a história de um irlandês recém-chegado á cidade e muito bem-sucedido com as mulheres. Segundo a opinião geral, o próprio Farquhar era bonito e sedutor, espirituoso e agaitador.
Uma noite, numa taberna, Farquhar escutou uma jovem de nome Anne Oldfield, que lia em voz alta atrás do balcão. Convicto do talento dela, ele a apresentou a amigos do teatro, e Anne foi recebida como atriz na companhia Drury Lane.
A relação entre George e Anne não foi duradoura e em 1703 ele se casou com uma viúva chamada Margareth Pemell. Durante toda a vida, George teve problemas financeiros e de saúde, porém, mesmo nos períodos mais difíceis, ainda escreveu suas comédias surpreendentes e iconoclastas, das quais a mais conhecida deve ser The Recruiting Officer.
Na mesma época em que George se casou, Anne Oldfield manteve um longo relacionamento com um deputado, Arthur Mainwaring. A carreira dela se tornou cada vez mais sólida. Ao morrer, em 1730, Anne era rica e famosa. Foi sepultada na Abadia de Westminster.

                                                           ***

Para Anne Oldfield, domingo, após o sermão (1699)
Eu vim, vi e fui vencido; nenhum homem teve tanto a dizer, mas não posso dizer nada. Onde os outros vão salvar suas almas, perdi a minha; porém espero que ela tenha sido recebida por aquela divindade cujo nome expressa com justiça suas ações. Mas vou tentar conter por um momento minhas expressões de êxtase e falar com calma...
Senhora, no mundo, só tua beleza pode ser mais encantadora que teu próprio espírito: depois disso, se eu não te amasse, tu me proclamarias um tolo; se eu dissesse que te amo e pensasse de outra forma, seria declarado vilão; se alguém me considerasse um dos dois, eu ficaria ressentido; e se pensares que sou um dos dois partirás meu coração.
Já me conheces bastante, senhora, para ter por mim estima ou aversão. Teu bom-senso é superior ao do teu gênero, portanto deixa que teu comportamento faça o mesmo e diz-me claramente o que posso esperar. Se eu fosse pedir conselho a meus méritos, minha humildade afastaria qualquer sombra de esperança, mas depois de ver um rosto cuja composição é um sorriso de benevolência, por que eu deveria ser tão injusto a ponto de suspeitar-te de crueldade? Deixa-me viver em Londres e ser feliz ou voltar para meu deserto para controlar a vaidade que me trouxe de lá. Mas deixa que te implore ouvir minha sentença de teus próprios lábios, para que eu possa escutar-te falar e ver-te olhar-me ao mesmo tempo; então, que eu seja infeliz, se isso for possível.
Se não eras a dama de luto sentada à minha direita na igreja, então, podes ir para o inferno, pois estou certo de que és uma bruxa.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Richard Steele 1672 - 1729 Pág 20

RICHARD STEELE foi jornalista, escritor e político. Com seu amigo, Joseph Addison, fundou a revista Spectator. Mary Scurlock foi sua segunda esposa. Ele a conheceu no enterro da primeira e a cortejou com uma obstinação apaixonada. A segunda carta aqui incluída foi escrita duas semanas antes do casamento. Ela é divertida e emocionante pela descrição que o autor faz de si mesmo como um homem completamente arrancado das preocupações do dia pela lembrança da mulher amada. Richard e Mary se casaram em 1707, mas a união permaneceu secreta por algum tempo, talvez por uma questão de decoro - o que poderia explicar a trivialidade do pós-escrito da terceira carta. O casamento foi notoriamente feliz, embora as vezes tumultuado, e Mary foi durante toda a vida do escritor sua "querida Prue". Antes e depois do casamento, Steele escreveu para a esposa mais de quatrocentas cartas. Ela morreu em 1718.

                                                             ***

Para Mary Scurlock
Senhora,
Que linguagem devo usar para comunicar à adorável bela os sentimentos de um coração que ela se compraz em torturar? Longe de ti, não tenho um minuto de tranquilidade; quando estou contigo tu me tratas com tanta indiferença que permaneço num estado de alheamento, agravado pela visão dos encantos de que me dês um leque, uma máscara ou uma luva que tenhas usado, caso contrário não poderei viver; ou então, deves esperar que eu beije tua mão ou roube teu lenço quando me sentar junto a ti. És uma dádiva grande demais para ser conquistada de imediato, portanto deve ser preparado aos poucos para que esse presente precioso não me deixe louco de alegria.
Cara senhorita Scurlock, estou cansado de chamar-te por esse nome, portanto diga-me em que dia, senhora, receberás o nome deste que é teu servo mais obediente, devotado e humilde,
RICH. STEELE


Agosto de 1707 (duas semanas antes do casamento)
Senhora,
Não há no mundo nada mais difícil do que estar apaixonado e ter de cuidar de negócios. No meu caso, todos os que falam comigo me acham em falta; preciso me encarcerar, antes que alguém faça isso por mim.
Hoje pela manhã, um cavalheiro me perguntou: "Tens notícias de Lisboa?" e eu respondi: Ela é requintadamente bela." Outro queria saber quando estive em Hampton Court por último. Retorqui: "Será na terça-feira da próxima semana." Peço-te, deixe-me pelo menos beijar tua mão antes daquele dia, para que minha mente possa manter alguma compostura. Ó amor!
Mil tormentos me cercam!
Mas quem viveria para viver sem vós?
Penso que poderia escrever-te um volume inteiro, mas todas as linguagens do mundo não são capazes de descrever o quanto, e com que paixão imparcial, sou sempre teu,
RICH. STEELE


7 de outubro de 1707
Amada criatura,
Escrevo-te somente para desejar-te uma boa noite e tranquilizar-te quanto à minha dedicação àquele assunto que mencionei.
Podes ter certeza de que eu te valorizo de acordo com teu mérito, o que equivale a dizer que meu coração está preso a ti por todos os laços da beleza, da virtude, da bonomia e da amizade. Pelo progresso que realizei esta noite, concluo que em dois dias devo encerrar meus negócios com bons resultados. Escreve-me para dizer que está com boa disposição, o que dará o maior prazer a teu grato marido,
RICH. STEELE

Amanhã, vou precisar de alguma roupa de cama da tua casa.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

William Congreve 1670 - 1729 Pág 17

WILLIAM CONGREVE foi um aclamado dramaturgo, mais conhecido pela peça The Way of the World. Arabella Hunt, uma das musicistas favoritas da corte da rainha Mary, casou-se com James Howard em 1680. Seis meses depois, ela pediu a anulação do casamento pela procedente justificativa de que James era uma viúva chamada Amy Poulter, que se fazia passar por homem. Naquela época, o termo senhora era uma maneira respeitosa de se dirigir a uma mulher adulta. Congreve também não se casou, mas manteve prolongados casos de amor com Anna Bracegirdle, uma atriz para quem escreveu diversos papéis, e com Henriquetta, Duquesa de Marborough, que lhe deu uma filha em 1723.

                                                               ***

Para s Sra. Arabella Hunt

 - Não crês no meu amor? Não podes ter a pretensão de ser tão incrédula. Se não acreditas na minha palavra, consulta meus olhos e consulta os teus. Por meio de teus olhos, verás que eles têm encantos; nos meus, verás que meu coração é sensível a eles. Recorda o que aconteceu à noite passada: aquilo pelo menos foi um beijo de amor. O fervor, a veemência e o calor daquele beijo deram voz ao deus de quem ele é filho. Mas, oh! Sua doçura, sua terna suavidade expressavam ainda mais aquele deus. Com os membros trêmulos e a alma febril, me deliciei.  Convulsões, suspiros e murmúrios mostraram a imensa desordem dentro de mim, desordem que o beijo só fez aumentar, pois aqueles lábios queridos injetaram em meu coração e em minhas entranhas um veneno delicioso e uma ruína inevitável, mas encantadora.
Quanto não pode acontecer em um dia! Na noite anterior eu me considerava um homem feliz, a quem nada faltava, com a certeza da sorte: louvado pelos homens sábios e aplaudido pelos outros. Satisfeito, ou melhor, encantado com meus amigos, então meus melhores amigos, consciente de todos os prazeres delicados e neles possuindo tudo.
Mas o amor, o amor todo-poderoso, parece ter em um único instante me afastado prodigiosamente de tudo o que não seja tua pessoa. No meio da multidão, estou só. Só tu consegues dominar minha mente, e esta não se ocupa senão de ti. Pareço ser transportado contigo para algum deserto estrangeiro (ah! Se assim fosse de fato transportado!), onde, em ti abundantemente provido de tudo, poderia viver uma era de êxtase ininterrupto.
O cenário do grande palco do mundo de repente parece ter sido miseravelmente transformado. A não ser por ti, os objetos que me cercam são desprezíveis; os encantos do mundo inteiro parecem ter sido traduzidos em ti. Dessa forma, nesse estado deplorável, mas oh, tão prazenteiro, minha alma só se concentra em ti; ela vos contempla, admira, adora, ou melhor, confia somente em ti. Se tu e a esperança desertarem minha alma, o desespero e o sofrimento infinito serão os companheiros dela.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Henrique VIII 1491-1547 Pág 15

Henrique VIII estava casado com a primeira esposa, Catarina de Aragão, quando conheceu Ana Bolena, em 1526. A igreja Católica não permitia o divórcio; o rei, obcecado por Ana, que se recusava a ser sua amante, fez o que pode para convencer o papa a conceder-lhe a anulação do primeiro casamento. Diante da recusa do pontífice, Henrique rompeu relações com a Igreja Romana e criou a Igreja Anglicana, da qual se tornou dirigente supremo. (Ele não tinha problemas de autoestima: veja na carta a seguir o presente que enviou a Ana.) Depois de sete anos de incerteza, em janeiro de 1533, Henrique e Ana finalmente se casaram. Em setembro do mesmo ano a rainha deu à luz Elizabeth, que viria a reinar como Elizabeth I. Em maio de 1536, a rainha Ana foi presa, acusada de adultério com diversos homens, inclusive o próprio irmão, George, Visconde de Rochford. Ela foi condenada e decapitada na Torre de Londres. No mesmo dia, seu casamento com Henrique foi anulado. Onze dias depois, o rei desposou Jane Seymour. Das seis afortunadas esposas de Henrique, Jane foi a única a dar-lhe um filho que viveu mais do que ele: Eduardo VI.

                                                              ***

Para Ana Bolena

Minha amante e amiga:
Meu coração e eu nos colocamos em tuas mãos  suplicamos que nos recomendes a tuas boas graças. Que a distância não diminua a afeição que nos dedicas; isso aumentaria nossa dor, o que seria muito lamentável, pois a separação já causa dor suficiente, mais do que algum dia pensei ser possível. Isso me lembra um fato astronômico, qual seja, quanto mais distantes os polos estão do sol, mais abrasadora é a temperatura. O mesmo se dá com nosso amor: a ausência nos distanciou, mas o fervor é maior pelo menos em mim. Espero o mesmo de ti e garanto que, no meu caso a angustia da separação é tanta que seria intolerável se eu não guardasse firme a esperança em teu afeto indissolúvel. Para que te lembres de mim e como não posso estar contigo em pessoa, mando-te o que mais se aproxima disso: meu retrato e o brasão que já conheces, aplicado em pulseiras, desejando estar eu mesmo no lugar deles, quando for de teu agrado. Pela mão de teu servo e amigo,
H.R.

Plínio, o Jovem (6I d.C - 112 d.C.) Pág - 13

PLÍNIO, o JOVEM (Gaius Plinius Caecilius Secundus) era filho de um proprietário rural do norte da Itália. Depois da morte do pai, foi criado pelo tio, Plínio, o Velho, autor de uma famosa enciclopédia de história rural. O tio morreu no ano de 79 d.C., durante a erupção do Vesúvio.
Plínio fez carreira como advogado e servidor público, tendo sido cônsul e depois governador de uma província romana. Ele deixou dez volumes de cartas: nove para amigos e colegas e uma para o imperador Trajano.

                                                                ***

Para a esposa, Calpúrnia

Não acreditarás na saudade que sinto de ti. A principal causa é meu amor e o fato de não costumarmos ficar separados. Por isso, durante a noite me acontece ficar acordado por muito tempo, pensando em ti, e de dia, quando chega a hora em que costumava visitar-te, meus pés, como se diz com razão, me levam até teu quarto; mas não te encontro lá e volto, triste e deprimido como um amante desprezado. Só fico livre desses tormentos quando estou assoberbado de trabalho no tribunal e nos processos dos amigos. Avalie como é a minha vida quando só encontro repouso no trabalho e conforto na tristeza e na ansiedade.
Adeus.

Pág - 11

John Donne
Anne Donne
Un-done*


John Donne, da prisão Fleet, em carta à esposa depois de seu casamento secreto, em dezembro de 1601.



*Des-feitos, em tradução literal. (N.do E.)

Introdução

Em nossos dias, muitos pensam que cartas de amor não são mais escritas e que o correio eletrônico e as mensagens de texto representam a morte do romantismo. Hoje parece improvável que até mesmo o amante mais apaixonado diga, como o dramaturgo Willian Congreve, que "Só tu consegues dominar minha mente, e esta não se ocupa senão de ti." Contudo, Congreve era um gênio da literatura. Por outro lado, o almirante Nelson definitivamente não era um literato e mesmo ele concebeu para Lady Hamilton a comovente expressão: "Emma é o alfa e o ômega de Nelson!". Talvez tenhamos nos tornado menos românticos  e mais céticos, ou talvez aqueles homens fossem mais desinibidos do que somos hoje. Com certeza, a ironia, o espirito que preside a nossa era, quase não encontra espaço nesta coletânea.
Portanto, ao ler todas essas cartas de amor e descobrir as histórias por trás delas, somos tentados a pensar que nós, bárbaros modernos, perdemos a fé não só no amor, mas também na arte de expressá-lo. Porém, nas cartas que seguem, o que mais me tocou não foram as declarações elegantes e apaixonadas, ou, pelo menos, não somente elas; quando esbarram em preocupações mais prosaicas como a confiabilidade do correio, a necessidade de roupas de cama limpa, as lembranças á mãe da amada ou a descrição de um sonho, as cartas subitamente ganham vida e seus autores parecem mais humanos. Pode-se defender a ideia de que as declarações rebuscadas são mais para serem vistas (em alguns casos, pela posteridade) do que para expressar com autenticidade um sentimento genuíno - são mais fruto das convenções do que da convicção. E seria razoável chamar este livro de "Homens notáveis: Falando sobre si mesmo desde 6I d.C.". Com certeza faria bem alguns desses missivistas se alguém os chamasse de lado e dissesse: Você não é o centro do universo.
Evidentemente, não faz sentido afirmar que uma mensagem de texto como "NO BAR VENDO FUT VOLTO JAH BJS" é mais genuína, portanto mais romântica do que uma declaração como a de Byron: "O que sinto por ti é mais do que amor, e não consigo deixar de te amar." Assim, embora esperemos que esta coletânea agrade, emocione e talvez até divirta os leitores, ela também pode servir para lembrar aos grandes homens da atualidade que não é preciso ser um gênio literário para escrever uma carta, uma mensagem de texto, ou um e-mail de amor sinceros.