segunda-feira, 11 de julho de 2011

William Congreve 1670 - 1729 Pág 17

WILLIAM CONGREVE foi um aclamado dramaturgo, mais conhecido pela peça The Way of the World. Arabella Hunt, uma das musicistas favoritas da corte da rainha Mary, casou-se com James Howard em 1680. Seis meses depois, ela pediu a anulação do casamento pela procedente justificativa de que James era uma viúva chamada Amy Poulter, que se fazia passar por homem. Naquela época, o termo senhora era uma maneira respeitosa de se dirigir a uma mulher adulta. Congreve também não se casou, mas manteve prolongados casos de amor com Anna Bracegirdle, uma atriz para quem escreveu diversos papéis, e com Henriquetta, Duquesa de Marborough, que lhe deu uma filha em 1723.

                                                               ***

Para s Sra. Arabella Hunt

 - Não crês no meu amor? Não podes ter a pretensão de ser tão incrédula. Se não acreditas na minha palavra, consulta meus olhos e consulta os teus. Por meio de teus olhos, verás que eles têm encantos; nos meus, verás que meu coração é sensível a eles. Recorda o que aconteceu à noite passada: aquilo pelo menos foi um beijo de amor. O fervor, a veemência e o calor daquele beijo deram voz ao deus de quem ele é filho. Mas, oh! Sua doçura, sua terna suavidade expressavam ainda mais aquele deus. Com os membros trêmulos e a alma febril, me deliciei.  Convulsões, suspiros e murmúrios mostraram a imensa desordem dentro de mim, desordem que o beijo só fez aumentar, pois aqueles lábios queridos injetaram em meu coração e em minhas entranhas um veneno delicioso e uma ruína inevitável, mas encantadora.
Quanto não pode acontecer em um dia! Na noite anterior eu me considerava um homem feliz, a quem nada faltava, com a certeza da sorte: louvado pelos homens sábios e aplaudido pelos outros. Satisfeito, ou melhor, encantado com meus amigos, então meus melhores amigos, consciente de todos os prazeres delicados e neles possuindo tudo.
Mas o amor, o amor todo-poderoso, parece ter em um único instante me afastado prodigiosamente de tudo o que não seja tua pessoa. No meio da multidão, estou só. Só tu consegues dominar minha mente, e esta não se ocupa senão de ti. Pareço ser transportado contigo para algum deserto estrangeiro (ah! Se assim fosse de fato transportado!), onde, em ti abundantemente provido de tudo, poderia viver uma era de êxtase ininterrupto.
O cenário do grande palco do mundo de repente parece ter sido miseravelmente transformado. A não ser por ti, os objetos que me cercam são desprezíveis; os encantos do mundo inteiro parecem ter sido traduzidos em ti. Dessa forma, nesse estado deplorável, mas oh, tão prazenteiro, minha alma só se concentra em ti; ela vos contempla, admira, adora, ou melhor, confia somente em ti. Se tu e a esperança desertarem minha alma, o desespero e o sofrimento infinito serão os companheiros dela.

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