A OBRA PRIMA DE Lawrence Sterne foi Tristram Shandy, ou, mais exatamente, A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy, cujos nove volumes foram publicados entre 1759 e 1767. O romance fez sucesso imediato e Sterne foi aclamado tanto em seu país quanto em todo continente europeu. A vulgaridade do humor e da sátira dessa obra chocou alguns leitores, pois parecia entrar em conflito com a profissão do autor: Sterne era clérigo, tendo publicado diversos volumes de sermões. Sua natureza paradoxal - moralista licencioso e cristão cético - é ilustrada pela segunda carta aqui incluída, para Lady Percy, na qual ele procura veementemente promover um encontro clandestino enquanto simula deixar tudo por conta dos deuses.
Era de conhecimento geral que o casamento de Sterne era infeliz; sua esposa, Elizabeth Lumley, foi descrita pelo próprio primo como "uma mulher de grande integridade e muitas virtudes, que no entanto se projetam como as farpas de um irascível porco-espinho". Sterne viveu muitos romances, sendo o mais duradouro com Catherine Fourmantel, uma famosa cantora.
***
Para Catherine Fourmantel, 8 de maio de 1760
Minha querida Kitty,
Cheguei aqui em segurança e boa saúde, a não ser pela ferida aberta que causaste em meu coração, como a querida e encantadora perversa que és. E agora, minha cara, amada menina, deixa-me garantir que tenho por ti o mais fiel afeto que um homem já nutriu por uma mulher. Onde quer que esteja, meu coração se enche de ardor por ti e sempre o fará, até que esfrie para sempre.
Eu te agradeço pela gentil prova de amor que me deste e por teu desejo de acalmar meu coração, por te obrigares a renunciar a tu sabes quem. Enquanto fico tão infeliz por estar longe de minha querida Kitty, minha alma seria apunhalada pelo pensamento de que um sujeito como aquele poderia ter liberdade de se aproximar de ti. Portanto, recebo com imensa satisfação essa prova de teu amor e dos teus bons princípios; confio e conto tanto contigo nessa questão como se estivesse a teu lado - pudesse Deus permitir que eu aí estivesse nesse momento! Mas estou sentado em meu quarto, solitário (ás dez horas da noite, depois da peça) e daria um guinéu de ouro em troca do toque da sua mão. Minha alma se projeta perpetuamente para ver o que fazes; ah, se eu pudesse mandar com ela o meu corpo!
Adeus, querida e gentil menina, creia-me sempre teu bom amigo e mais carinhoso admirador. Esta noite vou ao Oratório. Adeus! Adeus!
PS: Meus préstimos a tua mamãe.
Encontre-me no Pall Mal, na segunda casa da rua St Alban's.
***
Para Lady Percy
Enviada do café Mount Coffee House, terça-feira, 3 horas
Um estranho efeito mecânico se produz quando se escreve uma carta de amor a tão pequena distância da dama que se domina o coração e a alma de um inamorato. Por esta razão ( e mais ainda porque devo jantar nas vizinhanças), eu, Tristram Shandy, troquei minha residência por um café, o mais próximo que encontrei da casa de minha querida Lady, e solicitei uma folha de papel com bordas douradas para testar a veracidade desde artigo do meu credo - vamos a ele:
Oh, minha querida Lady, fizeste da minha alma um trapo! A propósito, penso que essa abertura guarda excessiva familiaridade para uma situação tão pouco familiar quanto é a minha contigo - na qual, sabe Deus, sou mantido a distância e perco a esperança de me aproximar de ti alguns centímetros, apesar de todos os passos e rodeios que sou capaz de conceber para advogar minha causa diante de ti. Não iria qualquer homem razoável fugir diametralmente de ti, para tão longe quanto suas pernas pudesse levá-lo, em vez de se expor dessa forma louca e irresponsável, seguidamente, quando seu coração e sua consciência lhe dizem que ele com certeza fracassará, se não resultará totalmente perdido?
Por que me dizes que gostarias de me ver? Será que tens prazer em me fazer mais infeliz, ou teu triunfo é maior pelo fato de teus olhos e lábios terem feito de tolo um homem que o restante da cidade considera sábio?
Sou um idiota, o mais fraco, o mais submisso, o mais carinhoso idiota cuja fraqueza foi posta á prova por uma mulher, e o mais instável no propósito e na resolução de recuperar a segurança da mente.
Há apenas uma hora fiquei de joelhos e jurei nunca mais me aproximar de ti; depois de rezar um pai-nosso buscando benefício da parte final da oração - não cair em tentação -, precipitei-me para a rua contra o mundo, a carne e o demônio, sem duvidar de que finalmente iria tê-los todos a meus pés.
E agora que estou tão perto de ti, a essa distância tão pequena de tua casa, sinto meu ser mergulhado num turbilhão que virou meu cérebro do avesso. Embora tenha comprado um camarote para o espetáculo beneficente da senhorita, sabia muito bem que, caso me seja enviada uma só linha para informar-me de que Lady estará a sós ás sete horas e aceitará que eu passe a noite com ela, sem falta ele confirmará tudo o que lhe revelei.
Janto na casa do Sr. Cr na rua Wigmore, neste bairro, e lá permanecerei até as sete horas, na esperança de que disponhas a me pôr á prova. Se não receber qualquer notícia até essa hora, concluirei que tens coisa melhor a fazer; tomarei um lamentável caro de aluguel e trotarei tristemente para o teatro. Maldita seja a palavra, nada me resta senão tristeza, a não ser pelo fato de que te amo (talvez loucamente, porém) com maior sinceridade,
L. STERNE
Cartas de Amor de Homens Notáveis
Sou uma grande admiradora do livro e quero compartilhar com todos vocês, as mais belas cartas de amor escritas por grandes personalidades da literatura mundial, tais como Napoleão, Darwin e Beethoven. No blog, as cartas serão postadas diariamente, até que todo livro seja descrito.
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domingo, 30 de outubro de 2011
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
David Hume 1711-1776 pág 31
DAVID HUME foi filósofo, economista e historiador. Seus principais trabalhos incluem o Tratado da natureza humana e a Investigação sobre o entendimento humano. Ele viveu uma vida erudita e exemplar até 1763, quando foi pela primeira vez a Paris, permanecendo por mais de dois anos naquela cidade. Nesse período, Hume parece ter passado por algum tipo de crise da meia-idade; aclamado nos salões das grandes damas parisienses, enamorou-se especialmente de certa Madame de Boufflers, amante do príncipe de Conti. No entanto, esta senhora era muito mais experiente que o filósofo nesse tipo de flerte e o apaixonado Hume ficou cada vez mais confuso. Quando o marido dela morreu, tornou-se evidente que ela esperava casar-se com o príncipe e, por fim, o filósofo se viu no papel nada gratificante de confidente dos dois.
***
Para Madame de Boufflers, 3 de abril de 1766
Considero impossível, cara senhora, descrever o quanto me é difícil tolerar tua ausência e o constante desejo de estar contigo. Há muito tempo me habituei a pensar em ti como uma amiga de quem jamais precisaria estar distante por um período prolongado; tenho cultivado a ilusão de que somos destinados a passar nossas vidas em mútua intimidade e cordialidade. A idade e certa equanimidade de temperamento ameaçaram reduzir meu coração a um estado de grande indiferença por tudo, mas ele foi revitalizado por tua graciosa conversação e teu caráter vivaz. Que tua mente, perturbada pela ingrata situação em que te encontras e também por tua tendência natural, possa repousar na simpatia mais tranquila que encontra em mim.
Mas, vê bem! Já se passaram três meses desde que te deixei e não me é possível prever quando posso esperar rever-te. Torno a desejar nunca ter saído de Paris e ter-me mantido fora do alcance de todos os deveres, a não ser daquele tão doce e agradável: cultivar tua amizade e desfrutar de teu convívio. Tuas expressões gentis tornam esse arrependimento mais intenso, ainda mais quando mencionas as feridas que, embora superficialmente fechadas, no fundo ainda supuram.
Oh, querida amiga, temo que, nesse tormento tão resistente a qualquer remédio, ainda demores a alcançar um estado de tranquilidade e, pela natural elevação de teu caráter, em lugar de te colocares acima dele, tu o experimentes com a mais profunda sensibilidade. Só queria poder propiciar-te o conforto temporário que a presença de um amigo nunca deixa de representar... Beijo tuas mãos com a maior devoção possível.
***
Para Madame de Boufflers, 3 de abril de 1766
Considero impossível, cara senhora, descrever o quanto me é difícil tolerar tua ausência e o constante desejo de estar contigo. Há muito tempo me habituei a pensar em ti como uma amiga de quem jamais precisaria estar distante por um período prolongado; tenho cultivado a ilusão de que somos destinados a passar nossas vidas em mútua intimidade e cordialidade. A idade e certa equanimidade de temperamento ameaçaram reduzir meu coração a um estado de grande indiferença por tudo, mas ele foi revitalizado por tua graciosa conversação e teu caráter vivaz. Que tua mente, perturbada pela ingrata situação em que te encontras e também por tua tendência natural, possa repousar na simpatia mais tranquila que encontra em mim.
Mas, vê bem! Já se passaram três meses desde que te deixei e não me é possível prever quando posso esperar rever-te. Torno a desejar nunca ter saído de Paris e ter-me mantido fora do alcance de todos os deveres, a não ser daquele tão doce e agradável: cultivar tua amizade e desfrutar de teu convívio. Tuas expressões gentis tornam esse arrependimento mais intenso, ainda mais quando mencionas as feridas que, embora superficialmente fechadas, no fundo ainda supuram.
Oh, querida amiga, temo que, nesse tormento tão resistente a qualquer remédio, ainda demores a alcançar um estado de tranquilidade e, pela natural elevação de teu caráter, em lugar de te colocares acima dele, tu o experimentes com a mais profunda sensibilidade. Só queria poder propiciar-te o conforto temporário que a presença de um amigo nunca deixa de representar... Beijo tuas mãos com a maior devoção possível.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Alexander Pope 1688 - 1744 pág 26
O extraordinário Alexander Pope foi poeta, crítico literário, ensaísta, satirista, paisagista, especialista em arte, missivista e humorista. Durante toda a vida, Pope foi atormentado pela doença, o que foi atribuído ao fato de passar tempo demais com os livros. Na verdade, ele sofria de tuberculose óssea, contraída na infância, e que o deixou raquítico, inválido e afligido por diversos problemas de saúde. Pope estava sempre envolvido em conflitos, mas também mantinha m grande círculo de amigos dedicados. Adorava a companhia feminina e era muito sedutor. No entanto, embora as mulheres apreciassem os galanteios e a sagacidade do poeta, seus sentimentos recônditos nunca foram retribuídos.
Entre suas amigas, as irmãs Martha e Teresa Blount eram especiais. Pope mantinha correspondência com ambas, tendo uma vez escrito a Teresa: "Minha violenta paixão por tua bela pessoa e por tua irmã tem sido partilhada com a regularidade mais admirável do mundo. Desde a infância sou apaixonado por uma após outra, semana após semana." Pope nunca se casou, e Martha foi a principal herdeira em seu testamento.
A seguir, temos quatro cartas: Uma para cada irmã Blount, e duas para Lady Mary Wortley Montagu, outra amiga íntima, esposa de um diplomata que vivia em Constantinopla.
***
Para Martha Blount, 1714
Diviníssima,
Constitui prova da minha sinceridade para contigo o fato de escrever após beber como preparação para dizer a verdade; e com certeza uma carta escrita após meia-noite deve estar repleta desse nobre ingrediente. O coração aquecido pelo vinho e por ti deve ter uma abundância de chamas: o vinho desperta e expressa as paixões emboscadas na mente assim como o verniz destaca as cores ocultas em uma pintura, ressaltando toda a sua radiância natural. Em todas as horas de sobriedade do passado, minhas boas qualidades foram tão congeladas e aprisionadas em uma constituição doentia que me causa muito espanto encontrar em mim tanta virtude, agora que estou embriagado.
Nesses transbordamentos do meu coração, agradeço-te pelas duas cartas graciosas com que me favoreceste dos dias 18 e 24 do mês corrente. A que principia por "Meu encantador Sr. Pope!" me trouxe inexplicável prazer por fim, derrotaste completamente tua irmã nessa conquista. É verdade que não és bela, visto que és uma mulher que pensa não sê-lo, mas a boa vontade e a ternura que nutres por mim têm um encanto irresistível. O rosto que estava adornado por sorrisos mesmo quando não pôde assistir à coroação só pode ser cativante. Imagino que não vás exibir esta carta por vaidade, como tenho certeza que tua irmã faz com tudo o que lhe escrevo...
***
Para Teresa Blount, 1716
Senhora,
Tenho por ti tão grande estima e tanto da outra coisa que, se eu fosse um homem com qualidades, faria muito por ti, mas do jeito que as coisas são, só sirvo para escrever uma carta cortês ou fazer um bom discurso. Na verdade, se considerarmos com que frequência e franqueza declarei meu amor por ti, fico assombrado (e um tanto ofendido) por não haveres proibido de escrever-te e não me teres dito: Não me apareça mais!
Não é suficiente para tua reputação, senhora, que tuas mãos estejam limpas de manchas de tinta empregada para trazer satisfação a um correspondente do sexo masculino. Pobre de mim! Embora teu coração consinta em estimular neste correspondente a dissoluta liberdade de escrever, não és (realmente não és) o que tanto te esforças por me fazer pensar - uma puritana! Sou suficientemente presunçoso para concluir (como a maioria dos homens jovens) que o silêncio de uma boa dama é consentimento, portanto continuo a escrever.
No entanto, para ser tão inocente quanto possível nesta carta, conto-te as novidades. Perguntaste-me mil vezes quais são as novas, nas primieras palavras que me dirigiste, o que alguns interpretariam como um sinal de que não esperas nada dos meus lábios; e na verdade, quando dois apaixonados podem ser tão impertinentes a ponto de perguntar o que o mundo faz, isso não é sinal de que estejam juntos. O que quero dizer é que um de nós não está apaixonado pelo outro. Deixo por tua conta adivinhar qual de nós é essa criatura idiota e insensível, tão cega para excelência e os encantos do outro.
***
Para Lady Mary Wortley Montagu, junho de 1717
Senhora,
S viver na lembrança de outrem é algo desejável, isso é o que tens em mim, no mais elevado sentindo das palavras.
Não se passa um dia sem que tua imagem se apresente diante de mim; tua conversação volta à minha lembrança e cada situação, lugar ou ocasião em que desfrutei dela ressurgem pintados de forma tão vívida quanto uma imaginação tão apaixonada quanto terna é capaz de representar.
Dizes que o prazer de estar mais perto do sol exerce excelente efeito sobre tua saúde e tua disposição. Atraíste tanto minhas afeições para o Oriente que me tornei quase como um dos adoradores daquele astro, pois julgo que o sol tem mais motivo de orgulho por melhorar-te a disposição do que por dar vida a todas as plantas e maturar todos os minerais da terra.
Penso que um homem razoável poderia viajar feliz três ou quatro mil léguas para contemplar tuas qualidades e tua inteligência em sua plena perfeição. Quanto não se pode esperar de uma criatura considerada o que há de mais perfeito nesta parte do mundo, e na outra, beneficiada a cada dia pela luz do sol! Quando não escreves e falas o que de mais maravilhoso se possa imaginar, deves conformar-te por compartilhar com o restante do Oriente a acusação de te haveres entregado à mais extrema debilidade, preguiça e licenciosidade da vida...
Pelo amor de Deus, senhora, escreve-me sempre que puderes, na certeza de que não há outro homem mais fiel ou mais ansiosamente dedicado a ti. Diz-me que passas bem, diz-me que teu filhinho passa bem, diz-me que teu próprio cão - se o tiveres - também passa bem. Não me prives de nada que te dê prazer, pois, seja o que for, isso me agradará mais que qualquer outra coisa. Sou eternamente teu.
***
Para Lady Mary Wortley Montagu, depois do retorno dela à Inglaterra, 1719
Eu poderia estar morto ou tu poderias estar em Yorkshire, a julgar pelo que desfrutei de tua estadia na cidade. Desde a última vez que te vi, estive doente e agora tenho o rosto inchado e muito ruim; nada me faria tão bem quanto a visão da querida Lady Mary; quando vieres para cá, permite que te veja, pois te amo muito.
Entre suas amigas, as irmãs Martha e Teresa Blount eram especiais. Pope mantinha correspondência com ambas, tendo uma vez escrito a Teresa: "Minha violenta paixão por tua bela pessoa e por tua irmã tem sido partilhada com a regularidade mais admirável do mundo. Desde a infância sou apaixonado por uma após outra, semana após semana." Pope nunca se casou, e Martha foi a principal herdeira em seu testamento.
A seguir, temos quatro cartas: Uma para cada irmã Blount, e duas para Lady Mary Wortley Montagu, outra amiga íntima, esposa de um diplomata que vivia em Constantinopla.
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Para Martha Blount, 1714
Diviníssima,
Constitui prova da minha sinceridade para contigo o fato de escrever após beber como preparação para dizer a verdade; e com certeza uma carta escrita após meia-noite deve estar repleta desse nobre ingrediente. O coração aquecido pelo vinho e por ti deve ter uma abundância de chamas: o vinho desperta e expressa as paixões emboscadas na mente assim como o verniz destaca as cores ocultas em uma pintura, ressaltando toda a sua radiância natural. Em todas as horas de sobriedade do passado, minhas boas qualidades foram tão congeladas e aprisionadas em uma constituição doentia que me causa muito espanto encontrar em mim tanta virtude, agora que estou embriagado.
Nesses transbordamentos do meu coração, agradeço-te pelas duas cartas graciosas com que me favoreceste dos dias 18 e 24 do mês corrente. A que principia por "Meu encantador Sr. Pope!" me trouxe inexplicável prazer por fim, derrotaste completamente tua irmã nessa conquista. É verdade que não és bela, visto que és uma mulher que pensa não sê-lo, mas a boa vontade e a ternura que nutres por mim têm um encanto irresistível. O rosto que estava adornado por sorrisos mesmo quando não pôde assistir à coroação só pode ser cativante. Imagino que não vás exibir esta carta por vaidade, como tenho certeza que tua irmã faz com tudo o que lhe escrevo...
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Para Teresa Blount, 1716
Senhora,
Tenho por ti tão grande estima e tanto da outra coisa que, se eu fosse um homem com qualidades, faria muito por ti, mas do jeito que as coisas são, só sirvo para escrever uma carta cortês ou fazer um bom discurso. Na verdade, se considerarmos com que frequência e franqueza declarei meu amor por ti, fico assombrado (e um tanto ofendido) por não haveres proibido de escrever-te e não me teres dito: Não me apareça mais!
Não é suficiente para tua reputação, senhora, que tuas mãos estejam limpas de manchas de tinta empregada para trazer satisfação a um correspondente do sexo masculino. Pobre de mim! Embora teu coração consinta em estimular neste correspondente a dissoluta liberdade de escrever, não és (realmente não és) o que tanto te esforças por me fazer pensar - uma puritana! Sou suficientemente presunçoso para concluir (como a maioria dos homens jovens) que o silêncio de uma boa dama é consentimento, portanto continuo a escrever.
No entanto, para ser tão inocente quanto possível nesta carta, conto-te as novidades. Perguntaste-me mil vezes quais são as novas, nas primieras palavras que me dirigiste, o que alguns interpretariam como um sinal de que não esperas nada dos meus lábios; e na verdade, quando dois apaixonados podem ser tão impertinentes a ponto de perguntar o que o mundo faz, isso não é sinal de que estejam juntos. O que quero dizer é que um de nós não está apaixonado pelo outro. Deixo por tua conta adivinhar qual de nós é essa criatura idiota e insensível, tão cega para excelência e os encantos do outro.
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Para Lady Mary Wortley Montagu, junho de 1717
Senhora,
S viver na lembrança de outrem é algo desejável, isso é o que tens em mim, no mais elevado sentindo das palavras.
Não se passa um dia sem que tua imagem se apresente diante de mim; tua conversação volta à minha lembrança e cada situação, lugar ou ocasião em que desfrutei dela ressurgem pintados de forma tão vívida quanto uma imaginação tão apaixonada quanto terna é capaz de representar.
Dizes que o prazer de estar mais perto do sol exerce excelente efeito sobre tua saúde e tua disposição. Atraíste tanto minhas afeições para o Oriente que me tornei quase como um dos adoradores daquele astro, pois julgo que o sol tem mais motivo de orgulho por melhorar-te a disposição do que por dar vida a todas as plantas e maturar todos os minerais da terra.
Penso que um homem razoável poderia viajar feliz três ou quatro mil léguas para contemplar tuas qualidades e tua inteligência em sua plena perfeição. Quanto não se pode esperar de uma criatura considerada o que há de mais perfeito nesta parte do mundo, e na outra, beneficiada a cada dia pela luz do sol! Quando não escreves e falas o que de mais maravilhoso se possa imaginar, deves conformar-te por compartilhar com o restante do Oriente a acusação de te haveres entregado à mais extrema debilidade, preguiça e licenciosidade da vida...
Pelo amor de Deus, senhora, escreve-me sempre que puderes, na certeza de que não há outro homem mais fiel ou mais ansiosamente dedicado a ti. Diz-me que passas bem, diz-me que teu filhinho passa bem, diz-me que teu próprio cão - se o tiveres - também passa bem. Não me prives de nada que te dê prazer, pois, seja o que for, isso me agradará mais que qualquer outra coisa. Sou eternamente teu.
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Para Lady Mary Wortley Montagu, depois do retorno dela à Inglaterra, 1719
Eu poderia estar morto ou tu poderias estar em Yorkshire, a julgar pelo que desfrutei de tua estadia na cidade. Desde a última vez que te vi, estive doente e agora tenho o rosto inchado e muito ruim; nada me faria tão bem quanto a visão da querida Lady Mary; quando vieres para cá, permite que te veja, pois te amo muito.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
George Farquhar 1676/7 - 1707 Pág 23
GEORGE FARQUHAR nasceu em Londonderry. Filho de sacerdote, estudou em Trinity College, em Dublin. Quando deixou a universidade, tentou a carreira de ator, mas tinha medo de se apresentar em público. Mudou-se para Londres, onde foi encenada sua primeira peça, Love and a Bottle, que contava a história de um irlandês recém-chegado á cidade e muito bem-sucedido com as mulheres. Segundo a opinião geral, o próprio Farquhar era bonito e sedutor, espirituoso e agaitador.
Uma noite, numa taberna, Farquhar escutou uma jovem de nome Anne Oldfield, que lia em voz alta atrás do balcão. Convicto do talento dela, ele a apresentou a amigos do teatro, e Anne foi recebida como atriz na companhia Drury Lane.
A relação entre George e Anne não foi duradoura e em 1703 ele se casou com uma viúva chamada Margareth Pemell. Durante toda a vida, George teve problemas financeiros e de saúde, porém, mesmo nos períodos mais difíceis, ainda escreveu suas comédias surpreendentes e iconoclastas, das quais a mais conhecida deve ser The Recruiting Officer.
Na mesma época em que George se casou, Anne Oldfield manteve um longo relacionamento com um deputado, Arthur Mainwaring. A carreira dela se tornou cada vez mais sólida. Ao morrer, em 1730, Anne era rica e famosa. Foi sepultada na Abadia de Westminster.
***
Para Anne Oldfield, domingo, após o sermão (1699)
Eu vim, vi e fui vencido; nenhum homem teve tanto a dizer, mas não posso dizer nada. Onde os outros vão salvar suas almas, perdi a minha; porém espero que ela tenha sido recebida por aquela divindade cujo nome expressa com justiça suas ações. Mas vou tentar conter por um momento minhas expressões de êxtase e falar com calma...
Senhora, no mundo, só tua beleza pode ser mais encantadora que teu próprio espírito: depois disso, se eu não te amasse, tu me proclamarias um tolo; se eu dissesse que te amo e pensasse de outra forma, seria declarado vilão; se alguém me considerasse um dos dois, eu ficaria ressentido; e se pensares que sou um dos dois partirás meu coração.
Já me conheces bastante, senhora, para ter por mim estima ou aversão. Teu bom-senso é superior ao do teu gênero, portanto deixa que teu comportamento faça o mesmo e diz-me claramente o que posso esperar. Se eu fosse pedir conselho a meus méritos, minha humildade afastaria qualquer sombra de esperança, mas depois de ver um rosto cuja composição é um sorriso de benevolência, por que eu deveria ser tão injusto a ponto de suspeitar-te de crueldade? Deixa-me viver em Londres e ser feliz ou voltar para meu deserto para controlar a vaidade que me trouxe de lá. Mas deixa que te implore ouvir minha sentença de teus próprios lábios, para que eu possa escutar-te falar e ver-te olhar-me ao mesmo tempo; então, que eu seja infeliz, se isso for possível.
Se não eras a dama de luto sentada à minha direita na igreja, então, podes ir para o inferno, pois estou certo de que és uma bruxa.
Uma noite, numa taberna, Farquhar escutou uma jovem de nome Anne Oldfield, que lia em voz alta atrás do balcão. Convicto do talento dela, ele a apresentou a amigos do teatro, e Anne foi recebida como atriz na companhia Drury Lane.
A relação entre George e Anne não foi duradoura e em 1703 ele se casou com uma viúva chamada Margareth Pemell. Durante toda a vida, George teve problemas financeiros e de saúde, porém, mesmo nos períodos mais difíceis, ainda escreveu suas comédias surpreendentes e iconoclastas, das quais a mais conhecida deve ser The Recruiting Officer.
Na mesma época em que George se casou, Anne Oldfield manteve um longo relacionamento com um deputado, Arthur Mainwaring. A carreira dela se tornou cada vez mais sólida. Ao morrer, em 1730, Anne era rica e famosa. Foi sepultada na Abadia de Westminster.
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Para Anne Oldfield, domingo, após o sermão (1699)
Eu vim, vi e fui vencido; nenhum homem teve tanto a dizer, mas não posso dizer nada. Onde os outros vão salvar suas almas, perdi a minha; porém espero que ela tenha sido recebida por aquela divindade cujo nome expressa com justiça suas ações. Mas vou tentar conter por um momento minhas expressões de êxtase e falar com calma...
Senhora, no mundo, só tua beleza pode ser mais encantadora que teu próprio espírito: depois disso, se eu não te amasse, tu me proclamarias um tolo; se eu dissesse que te amo e pensasse de outra forma, seria declarado vilão; se alguém me considerasse um dos dois, eu ficaria ressentido; e se pensares que sou um dos dois partirás meu coração.
Já me conheces bastante, senhora, para ter por mim estima ou aversão. Teu bom-senso é superior ao do teu gênero, portanto deixa que teu comportamento faça o mesmo e diz-me claramente o que posso esperar. Se eu fosse pedir conselho a meus méritos, minha humildade afastaria qualquer sombra de esperança, mas depois de ver um rosto cuja composição é um sorriso de benevolência, por que eu deveria ser tão injusto a ponto de suspeitar-te de crueldade? Deixa-me viver em Londres e ser feliz ou voltar para meu deserto para controlar a vaidade que me trouxe de lá. Mas deixa que te implore ouvir minha sentença de teus próprios lábios, para que eu possa escutar-te falar e ver-te olhar-me ao mesmo tempo; então, que eu seja infeliz, se isso for possível.
Se não eras a dama de luto sentada à minha direita na igreja, então, podes ir para o inferno, pois estou certo de que és uma bruxa.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Richard Steele 1672 - 1729 Pág 20
RICHARD STEELE foi jornalista, escritor e político. Com seu amigo, Joseph Addison, fundou a revista Spectator. Mary Scurlock foi sua segunda esposa. Ele a conheceu no enterro da primeira e a cortejou com uma obstinação apaixonada. A segunda carta aqui incluída foi escrita duas semanas antes do casamento. Ela é divertida e emocionante pela descrição que o autor faz de si mesmo como um homem completamente arrancado das preocupações do dia pela lembrança da mulher amada. Richard e Mary se casaram em 1707, mas a união permaneceu secreta por algum tempo, talvez por uma questão de decoro - o que poderia explicar a trivialidade do pós-escrito da terceira carta. O casamento foi notoriamente feliz, embora as vezes tumultuado, e Mary foi durante toda a vida do escritor sua "querida Prue". Antes e depois do casamento, Steele escreveu para a esposa mais de quatrocentas cartas. Ela morreu em 1718.
***
Para Mary Scurlock
Senhora,
Que linguagem devo usar para comunicar à adorável bela os sentimentos de um coração que ela se compraz em torturar? Longe de ti, não tenho um minuto de tranquilidade; quando estou contigo tu me tratas com tanta indiferença que permaneço num estado de alheamento, agravado pela visão dos encantos de que me dês um leque, uma máscara ou uma luva que tenhas usado, caso contrário não poderei viver; ou então, deves esperar que eu beije tua mão ou roube teu lenço quando me sentar junto a ti. És uma dádiva grande demais para ser conquistada de imediato, portanto deve ser preparado aos poucos para que esse presente precioso não me deixe louco de alegria.
Cara senhorita Scurlock, estou cansado de chamar-te por esse nome, portanto diga-me em que dia, senhora, receberás o nome deste que é teu servo mais obediente, devotado e humilde,
RICH. STEELE
Agosto de 1707 (duas semanas antes do casamento)
Senhora,
Não há no mundo nada mais difícil do que estar apaixonado e ter de cuidar de negócios. No meu caso, todos os que falam comigo me acham em falta; preciso me encarcerar, antes que alguém faça isso por mim.
Hoje pela manhã, um cavalheiro me perguntou: "Tens notícias de Lisboa?" e eu respondi: Ela é requintadamente bela." Outro queria saber quando estive em Hampton Court por último. Retorqui: "Será na terça-feira da próxima semana." Peço-te, deixe-me pelo menos beijar tua mão antes daquele dia, para que minha mente possa manter alguma compostura. Ó amor!
Mil tormentos me cercam!
Mas quem viveria para viver sem vós?
Penso que poderia escrever-te um volume inteiro, mas todas as linguagens do mundo não são capazes de descrever o quanto, e com que paixão imparcial, sou sempre teu,
RICH. STEELE
7 de outubro de 1707
Amada criatura,
Escrevo-te somente para desejar-te uma boa noite e tranquilizar-te quanto à minha dedicação àquele assunto que mencionei.
Podes ter certeza de que eu te valorizo de acordo com teu mérito, o que equivale a dizer que meu coração está preso a ti por todos os laços da beleza, da virtude, da bonomia e da amizade. Pelo progresso que realizei esta noite, concluo que em dois dias devo encerrar meus negócios com bons resultados. Escreve-me para dizer que está com boa disposição, o que dará o maior prazer a teu grato marido,
RICH. STEELE
Amanhã, vou precisar de alguma roupa de cama da tua casa.
***
Para Mary Scurlock
Senhora,
Que linguagem devo usar para comunicar à adorável bela os sentimentos de um coração que ela se compraz em torturar? Longe de ti, não tenho um minuto de tranquilidade; quando estou contigo tu me tratas com tanta indiferença que permaneço num estado de alheamento, agravado pela visão dos encantos de que me dês um leque, uma máscara ou uma luva que tenhas usado, caso contrário não poderei viver; ou então, deves esperar que eu beije tua mão ou roube teu lenço quando me sentar junto a ti. És uma dádiva grande demais para ser conquistada de imediato, portanto deve ser preparado aos poucos para que esse presente precioso não me deixe louco de alegria.
Cara senhorita Scurlock, estou cansado de chamar-te por esse nome, portanto diga-me em que dia, senhora, receberás o nome deste que é teu servo mais obediente, devotado e humilde,
RICH. STEELE
Agosto de 1707 (duas semanas antes do casamento)
Senhora,
Não há no mundo nada mais difícil do que estar apaixonado e ter de cuidar de negócios. No meu caso, todos os que falam comigo me acham em falta; preciso me encarcerar, antes que alguém faça isso por mim.
Hoje pela manhã, um cavalheiro me perguntou: "Tens notícias de Lisboa?" e eu respondi: Ela é requintadamente bela." Outro queria saber quando estive em Hampton Court por último. Retorqui: "Será na terça-feira da próxima semana." Peço-te, deixe-me pelo menos beijar tua mão antes daquele dia, para que minha mente possa manter alguma compostura. Ó amor!
Mil tormentos me cercam!
Mas quem viveria para viver sem vós?
Penso que poderia escrever-te um volume inteiro, mas todas as linguagens do mundo não são capazes de descrever o quanto, e com que paixão imparcial, sou sempre teu,
RICH. STEELE
7 de outubro de 1707
Amada criatura,
Escrevo-te somente para desejar-te uma boa noite e tranquilizar-te quanto à minha dedicação àquele assunto que mencionei.
Podes ter certeza de que eu te valorizo de acordo com teu mérito, o que equivale a dizer que meu coração está preso a ti por todos os laços da beleza, da virtude, da bonomia e da amizade. Pelo progresso que realizei esta noite, concluo que em dois dias devo encerrar meus negócios com bons resultados. Escreve-me para dizer que está com boa disposição, o que dará o maior prazer a teu grato marido,
RICH. STEELE
Amanhã, vou precisar de alguma roupa de cama da tua casa.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
William Congreve 1670 - 1729 Pág 17
WILLIAM CONGREVE foi um aclamado dramaturgo, mais conhecido pela peça The Way of the World. Arabella Hunt, uma das musicistas favoritas da corte da rainha Mary, casou-se com James Howard em 1680. Seis meses depois, ela pediu a anulação do casamento pela procedente justificativa de que James era uma viúva chamada Amy Poulter, que se fazia passar por homem. Naquela época, o termo senhora era uma maneira respeitosa de se dirigir a uma mulher adulta. Congreve também não se casou, mas manteve prolongados casos de amor com Anna Bracegirdle, uma atriz para quem escreveu diversos papéis, e com Henriquetta, Duquesa de Marborough, que lhe deu uma filha em 1723.
***
Para s Sra. Arabella Hunt
- Não crês no meu amor? Não podes ter a pretensão de ser tão incrédula. Se não acreditas na minha palavra, consulta meus olhos e consulta os teus. Por meio de teus olhos, verás que eles têm encantos; nos meus, verás que meu coração é sensível a eles. Recorda o que aconteceu à noite passada: aquilo pelo menos foi um beijo de amor. O fervor, a veemência e o calor daquele beijo deram voz ao deus de quem ele é filho. Mas, oh! Sua doçura, sua terna suavidade expressavam ainda mais aquele deus. Com os membros trêmulos e a alma febril, me deliciei. Convulsões, suspiros e murmúrios mostraram a imensa desordem dentro de mim, desordem que o beijo só fez aumentar, pois aqueles lábios queridos injetaram em meu coração e em minhas entranhas um veneno delicioso e uma ruína inevitável, mas encantadora.
Quanto não pode acontecer em um dia! Na noite anterior eu me considerava um homem feliz, a quem nada faltava, com a certeza da sorte: louvado pelos homens sábios e aplaudido pelos outros. Satisfeito, ou melhor, encantado com meus amigos, então meus melhores amigos, consciente de todos os prazeres delicados e neles possuindo tudo.
Mas o amor, o amor todo-poderoso, parece ter em um único instante me afastado prodigiosamente de tudo o que não seja tua pessoa. No meio da multidão, estou só. Só tu consegues dominar minha mente, e esta não se ocupa senão de ti. Pareço ser transportado contigo para algum deserto estrangeiro (ah! Se assim fosse de fato transportado!), onde, em ti abundantemente provido de tudo, poderia viver uma era de êxtase ininterrupto.
O cenário do grande palco do mundo de repente parece ter sido miseravelmente transformado. A não ser por ti, os objetos que me cercam são desprezíveis; os encantos do mundo inteiro parecem ter sido traduzidos em ti. Dessa forma, nesse estado deplorável, mas oh, tão prazenteiro, minha alma só se concentra em ti; ela vos contempla, admira, adora, ou melhor, confia somente em ti. Se tu e a esperança desertarem minha alma, o desespero e o sofrimento infinito serão os companheiros dela.
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Para s Sra. Arabella Hunt
- Não crês no meu amor? Não podes ter a pretensão de ser tão incrédula. Se não acreditas na minha palavra, consulta meus olhos e consulta os teus. Por meio de teus olhos, verás que eles têm encantos; nos meus, verás que meu coração é sensível a eles. Recorda o que aconteceu à noite passada: aquilo pelo menos foi um beijo de amor. O fervor, a veemência e o calor daquele beijo deram voz ao deus de quem ele é filho. Mas, oh! Sua doçura, sua terna suavidade expressavam ainda mais aquele deus. Com os membros trêmulos e a alma febril, me deliciei. Convulsões, suspiros e murmúrios mostraram a imensa desordem dentro de mim, desordem que o beijo só fez aumentar, pois aqueles lábios queridos injetaram em meu coração e em minhas entranhas um veneno delicioso e uma ruína inevitável, mas encantadora.
Quanto não pode acontecer em um dia! Na noite anterior eu me considerava um homem feliz, a quem nada faltava, com a certeza da sorte: louvado pelos homens sábios e aplaudido pelos outros. Satisfeito, ou melhor, encantado com meus amigos, então meus melhores amigos, consciente de todos os prazeres delicados e neles possuindo tudo.
Mas o amor, o amor todo-poderoso, parece ter em um único instante me afastado prodigiosamente de tudo o que não seja tua pessoa. No meio da multidão, estou só. Só tu consegues dominar minha mente, e esta não se ocupa senão de ti. Pareço ser transportado contigo para algum deserto estrangeiro (ah! Se assim fosse de fato transportado!), onde, em ti abundantemente provido de tudo, poderia viver uma era de êxtase ininterrupto.
O cenário do grande palco do mundo de repente parece ter sido miseravelmente transformado. A não ser por ti, os objetos que me cercam são desprezíveis; os encantos do mundo inteiro parecem ter sido traduzidos em ti. Dessa forma, nesse estado deplorável, mas oh, tão prazenteiro, minha alma só se concentra em ti; ela vos contempla, admira, adora, ou melhor, confia somente em ti. Se tu e a esperança desertarem minha alma, o desespero e o sofrimento infinito serão os companheiros dela.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Henrique VIII 1491-1547 Pág 15
Henrique VIII estava casado com a primeira esposa, Catarina de Aragão, quando conheceu Ana Bolena, em 1526. A igreja Católica não permitia o divórcio; o rei, obcecado por Ana, que se recusava a ser sua amante, fez o que pode para convencer o papa a conceder-lhe a anulação do primeiro casamento. Diante da recusa do pontífice, Henrique rompeu relações com a Igreja Romana e criou a Igreja Anglicana, da qual se tornou dirigente supremo. (Ele não tinha problemas de autoestima: veja na carta a seguir o presente que enviou a Ana.) Depois de sete anos de incerteza, em janeiro de 1533, Henrique e Ana finalmente se casaram. Em setembro do mesmo ano a rainha deu à luz Elizabeth, que viria a reinar como Elizabeth I. Em maio de 1536, a rainha Ana foi presa, acusada de adultério com diversos homens, inclusive o próprio irmão, George, Visconde de Rochford. Ela foi condenada e decapitada na Torre de Londres. No mesmo dia, seu casamento com Henrique foi anulado. Onze dias depois, o rei desposou Jane Seymour. Das seis afortunadas esposas de Henrique, Jane foi a única a dar-lhe um filho que viveu mais do que ele: Eduardo VI.
***
Para Ana Bolena
Minha amante e amiga:
Meu coração e eu nos colocamos em tuas mãos suplicamos que nos recomendes a tuas boas graças. Que a distância não diminua a afeição que nos dedicas; isso aumentaria nossa dor, o que seria muito lamentável, pois a separação já causa dor suficiente, mais do que algum dia pensei ser possível. Isso me lembra um fato astronômico, qual seja, quanto mais distantes os polos estão do sol, mais abrasadora é a temperatura. O mesmo se dá com nosso amor: a ausência nos distanciou, mas o fervor é maior pelo menos em mim. Espero o mesmo de ti e garanto que, no meu caso a angustia da separação é tanta que seria intolerável se eu não guardasse firme a esperança em teu afeto indissolúvel. Para que te lembres de mim e como não posso estar contigo em pessoa, mando-te o que mais se aproxima disso: meu retrato e o brasão que já conheces, aplicado em pulseiras, desejando estar eu mesmo no lugar deles, quando for de teu agrado. Pela mão de teu servo e amigo,
H.R.
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Para Ana Bolena
Minha amante e amiga:
Meu coração e eu nos colocamos em tuas mãos suplicamos que nos recomendes a tuas boas graças. Que a distância não diminua a afeição que nos dedicas; isso aumentaria nossa dor, o que seria muito lamentável, pois a separação já causa dor suficiente, mais do que algum dia pensei ser possível. Isso me lembra um fato astronômico, qual seja, quanto mais distantes os polos estão do sol, mais abrasadora é a temperatura. O mesmo se dá com nosso amor: a ausência nos distanciou, mas o fervor é maior pelo menos em mim. Espero o mesmo de ti e garanto que, no meu caso a angustia da separação é tanta que seria intolerável se eu não guardasse firme a esperança em teu afeto indissolúvel. Para que te lembres de mim e como não posso estar contigo em pessoa, mando-te o que mais se aproxima disso: meu retrato e o brasão que já conheces, aplicado em pulseiras, desejando estar eu mesmo no lugar deles, quando for de teu agrado. Pela mão de teu servo e amigo,
H.R.
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